Mais de 11.000 corredores tentaram uma vaga na edição de 2025. Conseguiram 225. A prova tem capacidade para 500 participantes no total, incluindo as vagas reservadas para elites e atletas com histórico na corrida. O restante do mundo faz fila, literalmente, num sorteio público que acontece na Casa de Cultura de Zegama. Isso, por si só, já diz muito sobre o que é a Zegama-Aizkorri.
Mas a matemática não explica tudo. O que explica é o que acontece nos 42,195 km pelo Parque Natural Aizkorri-Aratz, no País Basco, na Espanha. O que acontece nas subidas que tiram o fôlego, na descida final de volta ao vilarejo, na torcida que transforma cada passo de cada corredor numa experiência que quem correu diz que não consegue descrever direito.
Zegama é Zegama. É o que se diz.
O que é a Zegama-Aizkorri?
A prova nasceu em 2002, criada por Alberto Aierbe com um objetivo simples: dar visibilidade a um pequeno vilarejo basco de pouco mais de 1.500 habitantes chamado Zegama. Naquela primeira edição, realizada em julho, saíram 226 corredores. Os vencedores foram Juan Martín Tolosa (4h14min) e Rosa Lasagabaster (6h05min). Dezoito corredores terminaram abaixo das 5 horas. Era uma prova regional, quase íntima.
O que aconteceu nas edições seguintes foi uma bola de neve. Em 2004, a Zegama já fazia parte da Copa do Mundo da ISF (International Skyrunning Federation). Em 2007, um certo Kilian Jornet, então com 19 anos, debutou na prova com vitória. O resto virou história com H maiúsculo, como escrevem os bascos que acompanham a corrida há décadas.
Hoje a Zegama-Aizkorri integra o circuito Golden Trail World Series (GTWS), o principal circuito de skyrunning e trail de montanha do planeta, ao lado de provas como a Sierre-Zinal e a Marathon du Mont-Blanc. Mas dentro do circuito, ela tem um status diferente. É a etapa que os atletas citam quando perguntados qual prova mais querem vencer. É a que o público considera acima de qualquer outra.
Como é o percurso da Zegama-Aizkorri?

Os números de largada: 42,195 km e 2.736 metros de D+ (desnível positivo acumulado). O formato é o de uma maratona de montanha, com saída e chegada no mesmo ponto, a praça central de Zegama.
O percurso sobe quatro dos picos mais altos da região: Aratz (1.442m), Aizkorri (1.551m, o ponto mais alto do País Basco), Aitxuri e Andraitz. Atravessa o Parque Natural Aizkorri-Aratz, passando por florestas de faia, cristas calcáreas expostas ao vento, prados de altitude e terreno técnico que exige atenção permanente nos pés.
Dois pontos do percurso têm status de lendas próprias dentro do trail running mundial:
Otzaurte é o trecho inicial, onde o pelotão ainda está junto e a subida já separa quem vai e quem não vai. A energia da saída ainda está no corpo, mas a montanha já começa a cobrar.
Sancti Spiritu é outra coisa. É uma subida íngreme, técnica, com pedras soltas e pouca linha de apoio, onde os espectadores se amontoam dos dois lados da trilha sem deixar praticamente espaço para o corredor passar. São centenas de pessoas gritando, cantando, empurrando no limite do contato físico. Quem já correu a prova fala de Sancti Spiritu como um momento à parte, onde as pernas somem e o corredor passa num transe de adrenalina coletiva. Quem foi como espectador diz que é a experiência mais intensa que já viveu em qualquer prova de qualquer esporte.


A descida final de volta a Zegama fecha o percurso com 12 km consecutivos descendo em direção ao vilarejo. Depois de tudo que veio antes, é onde as pernas cobram a fatura.
| Dado | Informação |
|---|---|
| Distância | 42,195 km |
| D+ | 2.736 m |
| Ponto mais alto | Aizkorri (1.551 m) |
| Saída e chegada | Zegama, País Basco, Espanha |
| Data habitual | Maio (último domingo do mês) |
| Circuito | Golden Trail World Series |
| Número de participantes | Máximo 500 |
| Récorde masculino | 3h36min40s (Kilian Jornet, 2022) |
| Récorde feminino | 4h16min43s (Nienke Brinkman, 2022) |
Quem já venceu a Zegama-Aizkorri?
O nome que define a história da prova é Kilian Jornet. O corredor catalão debutou em Zegama em 2007 com uma vitória, e desde então construiu uma relação com a corrida que vai além do esporte. Ao longo de sua carreira, venceu a prova 11 vezes, com um percurso de 3h36min40s em 2022, o récorde ainda de pé. É difícil pensar em qualquer outra relação entre atleta e prova no trail running mundial que se aproxime disso. Jornet já disse em várias entrevistas que Zegama é uma corrida única. Para ele, não é retórica.
Na edição de 2025, com Jornet ausente (focado no Western States), o vencedor foi Elhousine Elazzaoui, do Marrocos, atleta da NNormal e campeão da GTWS 2024. Elazzaoui havia terminado em segundo lugar nas duas edições anteriores. Cruzou a linha em 3h43min28s, numa estratégia construída ao longo dos quilômetros finais, onde assumiu a liderança e desceu sem hesitar. Na chegada, disse que vencer Zegama era seu sonho e que era histórico para ele.
No feminino, a vitória de 2025 foi de Sara Alonso, corredora basca de San Sebastián, com 4h27min25s. Correr em casa, conhecer cada pedra do percurso e ouvir a torcida gritar seu nome em Sancti Spiritu não é a mesma coisa para qualquer outra atleta. Alonso disse que ganhar a txapela (o troféu tradicional basco, uma boina) em Zegama é um sonho de basca. O récorde feminino, de 4h16min43s, pertence à holandesa Nienke Brinkman, da mesma edição de 2022 em que Jornet também bateu o seu.

A prova tem uma consistência de nível que poucos circuitos de trail conseguem manter. Ao longo dos anos, os vencedores incluem nomes como Stian Angermund (Noruega), Rémi Bonnet (Suíça) e Manuel Merillas (Espanha), todos reconhecidos como referências técnicas da corrida de montanha.
Por que a Zegama-Aizkorri é diferente de todas as outras provas?
Tem uma resposta técnica e uma resposta que vai além da técnica.
A resposta técnica: o percurso combina desnível alto com terreno extremamente técnico em distância de maratona. Não é uma ultra longa onde o corredor gerencia o esforço ao longo de horas. São 42 km onde cada erro de pisada custa caro, onde a margem de recuperação é pequena e onde o ritmo de prova tem que ser próximo do limite desde os primeiros quilômetros. É um formato que exige um perfil específico de atleta, mais próximo do mountain runner clássico do que do ultramaratonista de volume.
A resposta que vai além: Zegama é uma aldeia de 1.500 pessoas que se transforma, uma vez por ano, no centro do trail running mundial. O público que vai à prova não é uma multidão dispersa ao longo de um percurso de 100 km. Está concentrado nos trechos chave, especialmente em Sancti Spiritu, onde a intensidade do apoio não tem equivalente em nenhuma outra corrida de montanha. Corredores de nível médio que terminaram a prova falam da subida de Sancti Spiritu com a mesma intensidade com que falam do podium. A experiência de passar por ali, com aquela torcida, parece ser o ponto mais citado por quem esteve lá.
Soma-se a isso o contexto cultural. O País Basco tem uma relação com a montanha e com a corrida de altitude que é anterior ao trail running como esporte organizado. A prova não foi importada de fora, foi construída de dentro para fora, com identidade local, língua basca, txapelas como troféu e a participação da comunidade como parte estrutural do evento.
Como funciona a inscrição na Zegama-Aizkorri?
Esse ponto não é o foco deste artigo, mas não dá para falar da Zegama sem mencionar o sistema de inscrição, porque ele diz muito sobre o status da corrida.
A prova tem capacidade máxima de 500 corredores. Parte das vagas é reservada para elites e para atletas com histórico na corrida, como os que participaram de todas as edições. As vagas restantes, 225, são sorteadas publicamente num evento em Zegama. Para a edição de 2025, mais de 11.000 corredores tentaram essas 225 vagas.
O sistema tem uma lógica própria: quem participa do sorteio e não é sorteado acumula números adicionais para as edições seguintes, aumentando progressivamente a chance. Algumas pessoas aguardam por anos. É uma dinâmica que reforça a sensação de que conseguir um dorsal em Zegama é, por si só, uma conquista antes mesmo da largada.
Vale a pena acompanhar a Zegama-Aizkorri mesmo sem correr?
A resposta curta: sim, sem discussão.
A Zegama-Aizkorri transmite ao vivo pelo canal do YouTube da própria prova e pelo canal da Golden Trail World Series. A transmissão cobre os pontos principais do percurso, com destaque para Sancti Spiritu, onde as imagens falam por si.
Para quem tem interesse em ir pessoalmente como espectador, Zegama fica a cerca de 50 km de San Sebastián e 60 km de Vitória-Gasteiz. A prova acontece sempre em maio. O clima basco nessa época do ano é variável: pode ser sol, pode ser chuva, pode ser névoa. A lama faz parte da tradição. Os espectadores mais experientes chegam sabendo disso, com boas botas e sem se importar.
Leia também:
GTWS – Golden Trail World Series: velocidade e elite no trail mundial
Perguntas frequentes
O que é a Zegama-Aizkorri?
É uma maratona de montanha realizada anualmente no País Basco, Espanha, com 42 km e 2.736m de D+. Integra o Golden Trail World Series e é considerada a prova de mountain running mais icônica do mundo.
Quem tem o récorde da Zegama-Aizkorri?
No masculino, Kilian Jornet com 3h36min40s (2022). No feminino, Nienke Brinkman com 4h16min43s, também em 2022.
Quantas vezes Kilian Jornet venceu a Zegama?
11 vezes, com estreia e vitória em 2007.
Quantas vagas existem no sorteio da Zegama?
225 vagas são sorteadas publicamente. Na edição de 2025, mais de 11.000 corredores disputaram essas vagas.
Quando acontece a Zegama-Aizkorri?
Sempre em maio, geralmente no último domingo do mês.









