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Gel de carboidrato ou hidrogel: qual usar na corrida?
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Gel de carboidrato ou hidrogel: qual usar na corrida?

Entenda como o gel de carboidrato e o hidrogel funcionam, as diferenças entre eles e quando usar cada um na trilha ou na estrada.
Gel de carboidrato para corrida: trail runner acessando sachê no colete durante prova com nutrição esportiva e hidratação

As reservas de glicogênio muscular duram cerca de 90 minutos em esforço intenso. A partir daí, o corpo precisa de reposição externa para não quebrar. Por anos, o gel de carboidrato foi a resposta padrão para esse problema. Agora o hidrogel aparece como alternativa, com uma proposta diferente: mesma função de reposição energética, textura nova e uma promessa de absorção mais suave para o estômago. Afinal de contas, gel de carboidrato ou hidrogel, qual o melhor?

Este artigo é baseado em literatura científica publicada, relatos de corredores e análise de fontes especializadas.

O que é o gel de carboidrato e como ele funciona?

O gel de carboidrato é um suplemento criado para fornecer energia rápida durante atividades de longa duração. Vem em sachê pequeno, geralmente entre 30 g e 40 g, fácil de carregar no bolso do colete ou no cinto de corrida (aquela pochete leve usada em provas de estrada e trail).

A base da fórmula são carboidratos simples: maltodextrina, frutose e, em algumas versões, dextrose ou palatinose. Cada um tem um perfil de absorção diferente. A maltodextrina vai rápido. A frutose segue por uma via metabólica separada. Quando combinadas na proporção 2:1 (maltodextrina para frutose), o intestino consegue processar mais carboidrato por hora do que com uma fonte isolada. Estudos mostram que essa combinação permite absorção de até 90 g de carboidrato por hora, contra cerca de 60 g com uma fonte única.

Muitos géis também trazem sódio, que ajuda na hidratação e na prevenção de cãibras, e algumas versões incluem cafeína para elevar o estado de alerta. O sabor varia bastante entre marcas: laranja, banana, açaí com guaraná, baunilha. Isso importa mais do que parece. No km 35 de uma ultra, quando o estômago começa a fechar, sabor errado pode ser o suficiente para o corredor pular o sachê.

A absorção do gel tradicional é rápida e direta. Entra, cai no estômago, vai para o intestino, vira glicose. Ponto. Simples, barato, acessível em qualquer loja de suplementos.

O que é o hidrogel e por que está em alta?

O hidrogel é uma inovação relativamente recente na nutrição esportiva. A tecnologia existe há alguns anos em pesquisa, mas chegou ao mercado brasileiro em versões comerciais por volta de 2024 e 2025.

A diferença começa na química. O hidrogel leva alginato de sódio e pectina, dois compostos naturais derivados de algas e frutas, misturados à solução de carboidratos. Quando esse líquido encontra o pH ácido do estômago, forma uma matriz gelatinosa que envolve os carboidratos. Essa estrutura modifica a forma como o conteúdo passa pelo estômago.

A textura do produto final é densa, parecida com gelatina. Não é líquido como o gel tradicional. Dependendo do formato, sai em blocos que precisam de mastigação leve. Isso pode parecer estranho para quem está acostumado a sugar o sachê correndo, mas é exatamente essa característica que tem atraído corredores com histórico de desconforto gástrico durante provas.

No Brasil, a marca Dobro foi uma das pioneiras com produto comercial. A formulação levou três anos de desenvolvimento e investimento acima de R$ 1,3 milhão, segundo informações da empresa. O produto tem sabor neutro mesmo com cafeína na composição, e o sachê tem abertura mais larga, pensada para facilitar o consumo sem sucção.

Qual a diferença entre gel de carboidrato e hidrogel?

Gel de carboidrato e hidrogel para corrida: comparativo dos dois produtos com suplementação esportiva e nutrição para trail

A tabela abaixo resume as principais diferenças:

CaracterísticaGel tradicionalHidrogel
ConsistênciaLíquido espessoGelatinoso, sai em blocos
Base químicaMaltodextrina, frutose, dextroseMaltodextrina, frutose + alginato e pectina
AbsorçãoRápida e diretaPotencialmente mais gradual
Tolerância gástricaVaria por pessoaProposta de menor desconforto
Ideal paraProvas de todos os comprimentosProvas longas, corredores sensíveis
Disponibilidade no BrasilAlta, várias marcasLimitada, poucas marcas
Faixa de preçoR$ 5 a R$ 20 por sachêR$ 15 a R$ 40 por sachê

A diferença central não está nos carboidratos em si, mas na forma como eles chegam ao intestino. O gel tradicional entrega energia rápida sem mediação. O hidrogel propõe controlar o ritmo de entrega por meio da matriz gelatinosa.

Qual funciona melhor para corridas longas e ultras?

A resposta honesta: depende, e a ciência ainda não tem consenso.

Pesquisas mostram resultados opostos dependendo da metodologia. Um estudo publicado no Medicine & Science in Sports & Exercise avaliou 11 corredores treinados em séries de 120 minutos seguidas de um teste de 5 km. O grupo que usou hidrogel com glicose e frutose teve tempo de prova 7,6% mais rápido e relatou menos desconforto gastrointestinal do que o grupo que usou gel convencional.

Mas outro estudo do mesmo periódico testou hidrogel em esforço de 3 horas a 60% do VO2 Máx. (capacidade máxima de consumo de oxigênio) em corredores treinados e não encontrou diferença relevante nem em performance nem em sintomas gástricos em relação ao gel padrão.

A diferença entre os estudos pode estar na intensidade do esforço. Em intensidades mais altas, o trânsito gástrico fica mais comprometido, e a estrutura gelatinosa do hidrogel pode fazer mais diferença. Em intensidades moderadas, o gel tradicional bem utilizado entrega resultado equivalente.

Uma revisão publicada no Frontiers in Nutrition em 2026 avaliou os dados disponíveis e concluiu que o hidrogel pode beneficiar corredores com alto consumo de carboidratos por hora (acima de 90 g/h) e histórico de desconforto gastrointestinal. Para o corredor que usa 1 a 2 géis por hora sem problema algum, o benefício do hidrogel sobre o gel convencional é incerto.

Pesquisas com corredores de maratona amadores, publicadas em 2026, indicam que o hidrogel pode ajudar na estabilidade glicêmica, ou seja, menos oscilação nos níveis de açúcar no sangue ao longo da prova. Esse dado importa especialmente em ultras: no km 40, 50, 60, glicemia instável derruba tanto o ritmo quanto a cabeça.

Quando o hidrogel pode ser a escolha certa?

Para quem nunca teve problema com gel tradicional em provas de até 21 km, a troca não tem justificativa clara ainda. O gel convencional cumpre a função, é mais barato e está em qualquer loja.

O hidrogel começa a fazer sentido em cenários específicos:

  • Provas acima de 3 horas com consumo alto de carboidratos por hora
  • Histórico de náusea, estufamento ou diarreia com gel tradicional
  • Corredores que querem aumentar a ingestão de carboidratos sem ampliar o desconforto gástrico
  • Ultras em calor, onde a digestão já fica comprometida pelo esforço e pela temperatura

Mas tem um ponto que não tem negociação: qualquer produto novo precisa ser testado em treino antes da prova. Gel novo, hidrogel, isotônico diferente, barra, tudo passa pelo treino antes de aparecer na largada. O estômago de prova não é o mesmo estômago de sofá. E o hidrogel, por ser diferente na textura, precisa de adaptação.

Como testar qualquer gel antes da prova?

O protocolo é o mesmo para gel tradicional e hidrogel:

Começa em treinos curtos, de até 1 hora, só para adaptar o intestino ao produto. Depois vai escalando: treino longo de 2 horas com 1 gel a cada 45 minutos. Só depois disso passa para o volume que vai usar na prova.

Em treinos de mais de 2 horas, a reposição geral fica entre 60 g e 90 g de carboidratos por hora. Um sachê de gel tradicional tem cerca de 20 g a 23 g de carboidratos. Para chegar em 90 g/h com gel, são 4 sachês por hora. Muita coisa. O hidrogel, com sua absorção potencialmente mais eficiente, pode permitir doses maiores com menos episódios de estufamento. Mas isso é hipótese que precisa ser testada individualmente.

E nunca tomar gel sem água. Esse é um erro clássico em corrida. O sachê concentrado precisa de líquido para não virar um fardo no estômago.

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As informações sobre nutrição têm caráter exclusivamente educativo e são baseadas em literatura científica. Não constituem prescrição dietética individual. Consulte um nutricionista esportivo registrado no CRN.

Referências científicas

Rowe, J. T. et al. (2022). Glucose and Fructose Hydrogel Enhances Running Performance, Exogenous Carbohydrate Oxidation, and Gastrointestinal Tolerance. Medicine & Science in Sports & Exercise, 54(1), 129-140. https://doi.org/10.1249/MSS.0000000000002764

Sutehall, S. et al. (2020). Addition of an Alginate Hydrogel to a Carbohydrate Beverage Enhances Gastric Emptying. Medicine & Science in Sports & Exercise, 52, 1785-1792. https://doi.org/10.1249/MSS.0000000000002301

Sutehall, S. et al. (2022). The Impact of Sodium Alginate Hydrogel on Exogenous Glucose Oxidation Rate and Gastrointestinal Comfort in Well-Trained Runners. Frontiers in Nutrition, 8, 810041. https://doi.org/10.3389/fnut.2021.810041

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre gel e hidrogel?

O gel tradicional é fluido e de absorção rápida. O hidrogel forma uma matriz gelatinosa no estômago que pode suavizar a entrega dos carboidratos e reduzir o desconforto gástrico em alguns corredores.

Hidrogel é melhor que gel para corrida?

Não necessariamente. A ciência ainda é inconsistente. Pode ser vantajoso para quem tem sensibilidade gástrica ou consome alto volume de carboidratos por hora.

Quando devo tomar gel durante a corrida?

A partir de 60 a 90 minutos de esforço. Em seguida, a cada 30 a 45 minutos, dependendo do produto e do volume planejado para a prova.

Preciso de água para tomar o gel?

Sim. O gel concentrado sem água pode piorar o desconforto gástrico e retardar a absorção. Sempre associar a um gole de água.

O hidrogel tem cafeína?

Algumas formulações têm. Verificar o rótulo de cada produto antes de usar, especialmente em provas noturnas ou para quem tem sensibilidade à cafeína.