A Nike decidiu que quer ser levada a sério no trail. Não como marca de lifestyle outdoor, não como patrocinadora de atletas que usam seus produtos nas fotos. De verdade, no terreno, nas provas, contra Salomon, HOKA e On Running. Em 2026, a linha ACG — All Conditions Gear — foi relançada com foco explícito em trail running e a Nike colocou dinheiro, produto e estrutura para fazer isso acontecer.
O que é a Nike ACG e por que isso importa?
ACG é uma sigla antiga dentro da Nike. All Conditions Gear nasceu nos anos 1980 como a divisão de produtos para condições extremas e durante décadas foi referência em outdoor de verdade. Mas nos últimos anos a linha tinha derivado para o universo do gorpcore — aquela moda urbana que mistura estética de montanha com uso na cidade. Tênis bonitos, mas não necessariamente para correr em trilha de verdade.
Em 2026, a Nike mudou isso. A operação Nike Trail foi integrada integralmente à ACG, reunindo décadas de expertise em corrida em um único guarda-chuva, preservando a identidade distinta da linha. O movimento é estratégico: a Nike quer recuperar espaço no trail premium que perdeu para Salomon, HOKA e, mais recentemente, On Running e NNormal.
O ACG Ultrafly: o tênis que prova o movimento

O produto que ancora o relançamento é o ACG Ultrafly. Desenvolvido ao longo de dois anos e 13 rodadas de testes que somaram mais de 30.000 milhas, o Ultrafly combina a expertise outdoor da ACG com o DNA de corrida da Nike.
O tênis usa a espuma ZoomX — a mais leve, macia e responsiva da Nike, com 85% de retorno de energia — e uma placa de fibra de carbono FlyPlate redesenhada, menos rígida que a versão anterior, com uma divisão na estrutura que permite flexão sobre raízes e pedras sem perder a propulsão.
Mas o que valida o produto não é o press release. É o resultado em prova. Caleb Olson venceu o Western States 100 de 2025 com um protótipo do Ultrafly no segundo tempo mais rápido da história da prova. É difícil pedir prova de conceito mais direta do que essa.
O tênis chegou ao mercado em 29 de janeiro de 2026, em três colorways, a R$ 260 dólares. A colorway laranja fluorescente — chamada de Hyper Crimson — virou símbolo visual do relançamento e aparece em praticamente toda comunicação da marca.
A equipe e a estratégia de competição
Junto com o produto, a Nike reorganizou sua equipe de atletas de trail. O Nike Trail Team passou a se chamar All Conditions Racing Department, com 22 atletas que testam os produtos em campo, oferecem feedback e participam do desenvolvimento dos lançamentos. A equipe recebeu novos atletas do Japão, Coreia e Estados Unidos.
A estratégia é clara: colocar atletas competitivos nas maiores provas do mundo usando ACG, coletar resultados e construir credibilidade técnica que nenhuma campanha de marketing substitui. O sucesso depende de desempenho de produto, depoimentos de atletas e resultados em prova que validem as capacidades técnicas da ACG.
O patrocínio do Broken Arrow e o dinheiro no trail
O sinal mais concreto do compromisso da Nike com o trail foi o patrocínio ao Broken Arrow Skyrace, uma das provas mais competitivas da América do Norte. O acordo multi-year com a Nike ACG resulta na maior premiação da história do trail independente: US$ 150.000, com US$ 30.000 para o vencedor do 23K, a maior bolsa individual de qualquer prova de trail no mundo.
Mas o patrocínio vai além da premiação. A parceria inclui o lançamento do Trail Futures NTN — Nike Trail Nationals — um evento juvenil de trail para corredores entre 10 e 20 anos, inspirado nos tradicionais Nike Cross Nationals de cross-country, criando um pipeline de jovens atletas para o esporte.
O que isso significa para o trail running
A entrada da Nike de volta ao trail com essa intensidade é uma notícia boa para o esporte. Mais investimento, mais competição entre marcas, mais pressão por inovação de produto. Salomon, HOKA e On Running não vão ficar parados.
Mas há uma questão legítima que os corredores mais técnicos levantam: enquanto o ACG Ultrafly performa bem em trilhas não técnicas e percursos de gravel, os terrenos mais agressivos e soltos pedem mais aderência do que o solado entrega. É um tênis de alta performance para cursos rápidos, não necessariamente para terrenos alpinos exigentes.
O portfólio da ACG resolve parte disso. O ACG Zegama, tênis mais robusto da linha, cobre os percursos mais longos e técnicos onde o Ultrafly chega no seu limite. Dois tênis, dois perfis de uso, estratégia de portfólio similar ao que Salomon faz com Speedcross e S/Lab.
A Nike está de volta ao trail. E dessa vez parece que vieram para ficar.










