O erro do estradão é simples: acelerar nos primeiros 3 a 5 km de reta ou estrada de chão firme, quase sem desnível, e pagar a conta na subida técnica logo depois. Não é acaso, é pace mal calculado na largada. Errei assim mais de uma vez, na WTR Arraial do Cabo e na XC Búzios, e a conta sempre chegou junto com o primeiro morro.
Estradão é esse trecho largo e de piso mais firme (estrada de terra, acesso de fazenda, via asfaltada) que várias provas de trail colocam logo na largada, antes de estreitar pra trilha. Serve pra organização espalhar o pelotão sem gargalo logo na saída. E é exatamente por isso que ele mente pro corredor: o corpo sente facilidade onde não vai ter facilidade nenhuma daqui a pouco.
Pra quem corre de asfalto e ainda não entrou numa prova de trilha, o estradão parece o momento de confirmar o ritmo de prova de rua, o pace de sempre, o corpo respondendo bem. Pra quem já correu uma trilha e sentiu a cabeça mentir num morro depois de um trecho fácil, essa reta inicial já é motivo de desconfiança. Deveria ser, sempre.
O corredor experiente reconhece o padrão rápido. O iniciante costuma cair nele pelo menos uma vez antes de aprender. E mesmo quem já corre trilha há anos ainda se pega acelerando demais numa largada boa, com música tocando e adrenalina alta, esquecendo por alguns minutos o que sabe de cor sobre o próprio percurso.
Por que correr rápido no estradão cobra na subida técnica depois?
Correr rápido em piso firme e reto usa o corpo de um jeito. Subir trilha técnica usa de outro. E isso faz diferença: o gasto de energia na subida não perdoa quem já queimou reserva no que parecia fácil.
Em Búzios, na XC, vi isso na prática. Saí no pelotão de frente no trecho de estrada, me senti ótimo, ritmo controlado, respiração tranquila, pernas leves. Pouco depois, na primeira subida técnica, as pernas já não respondiam do mesmo jeito. Não foi falta de treino. Foi erro de leitura do próprio percurso.
O mesmo aconteceu em Arraial do Cabo, só que de outro jeito: reta de areia dura e vento a favor, ritmo que parecia sustentável. Assim que a trilha virou pedra e subida, a conta chegou inteira, de uma vez.
Porque no trail, e na estrada também, cada grama de energia conta.
Gastar rápido demais no trecho fácil não é ganhar tempo. É emprestar tempo da subida, com juro. E o juro dessa dívida cobra justo na hora em que menos se tem reserva: no meio da prova, pernas já cansadas, ainda longe do fim.
Sobe. Sobe mais. Ainda tem subida. É assim que um percurso de montanha se comporta, e é assim que ele pune quem chegou na primeira rampa técnica já no vermelho.
Como ler a altimetria de uma prova antes de largar?
A altimetria não é enfeite de regulamento. É o mapa de onde o corpo vai pagar a conta. Trilhas como as de Campos do Jordão, por exemplo, costumam abrir em trecho mais aberto antes de entrar na Serra da Mantiqueira, onde o desnível técnico se concentra. O padrão se repete: reta fácil primeiro, cobrança séria depois.
Olhar o perfil de altimetria antes de largar muda a decisão de ritmo. Não precisa decorar número de D+ (desnível positivo acumulado) de cor. Precisa saber onde no percurso a subida técnica começa de verdade, pra guardar energia até lá.

Segundo, estude o perfil de altimetria da prova antes de largar. Saber em que km a subida técnica começa muda a decisão de quanto gastar nos primeiros minutos.
Terceiro, guarde reserva de pernas pra subida técnica de propósito. Não é frescura. É estratégia. Ponto. Quem chega na primeira subida forte de pernas administra o resto da prova com folga. Quem chega queimado sofre até o fim, com juro sobre juro.
Quarto, treine essa leitura antes do dia da prova. Nos treinos longos de preparação, force a si mesmo a andar ou trotar em trechos fáceis mesmo com pernas descansadas, simulando a disciplina que vai precisar no início de qualquer prova de montanha. Corredor que só treina o esforço difícil e nunca treina a contenção no esforço fácil chega na largada sem esse músculo mental pronto.
Vale pro corredor de asfalto que está testando a primeira trilha, vale pro iniciante que já sabe o que é aid station (posto de abastecimento) mas ainda erra o ritmo, e vale pro experiente que acha que já aprendeu essa lição e às vezes ainda esquece, na euforia da largada.
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Perguntas frequentes
O que é o estradão em uma prova de trail?
É o trecho inicial mais largo e de piso firme, estrada de terra ou via de acesso, que várias provas usam pra espalhar o pelotão antes da trilha estreitar.
Por que não devo acelerar no estradão?
Porque o esforço nesse trecho parece fácil, mas gasta reserva de energia que vai fazer falta na subida técnica logo depois.
Como saber se estou indo rápido demais no início da prova?
Se a respiração já está acelerada e a sensação é de esforço, mesmo em piso fácil, o pace está errado pro resto do percurso.
Existe um pace ideal pra correr o estradão?
Não existe um número fixo. O ideal é manter esforço percebido leve, guardando energia pra subida técnica que vem depois.
Dá pra treinar esse controle de ritmo antes da prova?
Dá, sim. Treinar contenção em trechos fáceis do treino longo ensina o corpo a guardar energia mesmo quando o piso permite ir mais rápido.

Bruno Valente é português radicado no Rio de Janeiro e corredor de montanha há mais de 5 anos. Com mais de 50 provas no currículo, fundou o Somos Trail para transformar sua vivência prática no esporte em informação útil e acessível. Atualmente, é o diretor editorial responsável por garantir a precisão de todo o conteúdo publicado no portal.









