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Mãe corredora: treinar é um ato de amor (por ela mesma)

Natalia Camargo, mãe corredora

Mãe corredora acorda às 5h. Pega o tênis com a mão para não fazer barulho. Sai na ponta dos pés. Do lado de fora, ainda escuro, ela respira fundo e começa a correr. Não está fugindo. Está voltando para ela mesma. Existem milhares de mães corredoras no Brasil e no mundo fazendo exatamente isso toda manhã, e essa é a história delas.

O que acontece quando o alarme toca às 5h da manhã?

Antes da casa acordar. Antes do café, da marmita, da lista de tarefas que não para de crescer. Tem uma mulher que se levanta, coloca a roupa do treino no escuro, e sai.

Não é magia. É negociação constante. Com o horário, com o parceiro, com a culpa que aparece sem ser chamada. “Será que eu deveria estar em casa?” A resposta, para quem já viveu isso, é não. Mas a pergunta volta toda vez.

Pesquisas mostram que 52,6% das mães brasileiras se sentem sobrecarregadas com frequência. Trabalho, filhos, casa, relacionamento. A corrida, nesse contexto, não é mais uma tarefa. É a única hora do dia que é só dela.

E mesmo assim ela precisa justificar.

Natália Camargo, médica e mãe corredora de 2 filhos.

Comecei a correr depois de ter meu segundo filho… e obviamente a culpa aparece de vez em quando ao me ausentar para treinar. O trail é importantíssimo pra minha saúde física e mental, me deixando melhor e mais inteira pros filhos. A culpa vira motivação ao perceber que sou motivo de orgulho pra eles a cada treino e a cada prova concluída.

Natália Camargo, médica e mãe de 2 filhos.

Por que a corrida não é egoísmo, é equilíbrio?

Tem uma narrativa que precisa morrer: a de que mãe que treina está tirando tempo dos filhos.

A ciência conta outra história. Exercício regular reduz marcadores de estresse, melhora humor e aumenta energia disponível para o resto do dia. Não é opinião. É fisiologia. A mãe que sai para correr 45 minutos volta com mais paciência, mais presença e mais capacidade de estar ali de verdade.

A corredora que volta do treino não é a mesma que saiu. E isso é bom para todo mundo.

Anny Santiago, mãe corredora

A corrida se tornou muito mais que um exercício; é minha válvula de escape e equilíbrio. No trail run, descobri novos desafios e um propósito que me fortalece como mulher e mãe.

Anny Santiago, Engenheira agrônoma e mãe de 2 filhos.

Como as mães corredoras encaixam o treino na vida real?

Não tem fórmula perfeita. Tem adaptação constante.

O horário mais comum é cedo: antes das crianças acordarem, antes do trabalho começar, antes de o dia tomar conta. Quem tem filho pequeno demais para ficar sozinho negocia com o parceiro, a avó, a vizinha de confiança. Quem não tem essa rede corre na esteira enquanto o bebê dorme. Carrega a roupa de treino na bolsa para onde vai, porque o treino acontece na janela que aparecer.

Tem mãe que corre empurrando carrinho. Tem mãe que leva o filho maior junto na bicicleta. Tem mãe que faz 12 km às 21h depois que a casa dorme, porque foi o único horário possível.

O que todas têm em comum: uma rede de apoio, por menor que seja. Parceiro que assume as crianças por uma hora. Família que entende. Ou simplesmente a decisão de tratar o treino como compromisso inadiável, não como luxo que pode esperar.

Porque quando a corrida vira opcional, ela some. E a pessoa que corre dentro dessa mãe some junto.

O que o trail ensina que a maternidade também ensina?

Quem corre trilha sabe: não dá para controlar o terreno. Você planeja, treina, se prepara. Mas a chuva vem quando quer, a pedra escorregadia aparece sem aviso, o km 30 chega com as pernas pesadas e a cabeça cansada.

Maternidade é assim. Todo dia.

A subida que não acaba é a fase de cólica do bebê que não dorme. A descida técnica que exige atenção total é o filho adolescente que precisa de você de um jeito diferente agora. O aid station (posto de abastecimento) é a avó que aparece no fim de semana e dá um descanso real.

E o que você aprende no trail vale lá fora: ajustar o ritmo não é desistir. Parar para respirar não é fraqueza. Chegar no seu tempo é chegar.

A mãe que corre trilha sabe disso no corpo. E leva para casa.

A foto que o mundo parou para ver

Sophie Power amamentando filho na UTMB
Alexis Berg / UTMB

Em setembro de 2018, durante o UTMB (Ultra-Trail du Mont Blanc, uma das ultramaratonas de montanha mais famosas do mundo), a britânica Sophie Power completou 170 km em 43h30. No meio da prova, ela parou em um posto de apoio para amamentar Cormac, seu filho de 3 meses.

A foto, tirada pelo fotógrafo Alexis Berg, viralizou no mundo inteiro. O jornal The Guardian a escolheu como uma das 50 fotografias que mudaram o esporte.

Sophie não queria correr com bebê tão pequeno. Queria adiar a vaga. Mas o UTMB, na época, aceitava adiamento por lesão, não por gravidez. Ela tinha conquistado a vaga em 2014, perdido por uma gestação anterior, ficado dois anos sem conseguir nova classificação. Em 2018, correu.

“Isso não é uma história sobre mim”, ela escreveu depois. “É sobre todas as mulheres que perdem vagas que trabalharam para conquistar porque engravidaram.”

A foto mudou a política do UTMB. Hoje a prova oferece adiamento e prioridade de inscrição para atletas grávidas. Sophie fundou a SheRACES, organização que trabalha para tornar o esporte mais inclusivo para mulheres. Uma mãe, uma ultramaratona, uma foto e uma mudança real no esporte.

Uma homenagem sem data de validade

O Dia das Mães é em maio. Mas a mãe corredora existe 365 dias por ano.

Ela existe no alarme das 5h. Na roupa de treino dentro da bolsa. Na negociação silenciosa com a culpa antes de sair. No km 8 quando a cabeça clareia e ela lembra, de novo, quem ela é além de mãe.

Para toda mãe que já precisou explicar por que precisa treinar: não precisa.

Para quem corre do lado dela, seja o parceiro que fica com as crianças, a amiga que divide o treino de manhã ou o filho que já entende que a mamãe precisa daquele tempo: obrigado. A rede de apoio é parte da conquista também.

E para a mãe que ainda não começou porque “não tem tempo”: o tempo não vai aparecer sozinho. Mas quando ela decidir que o treino é compromisso, não luxo, ela vai encontrar o horário. Às 5h da manhã, se precisar.

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Perguntas frequentes

Mãe pode treinar para trail com filho pequeno?

Sim. O segredo é rede de apoio e flexibilidade de horário. Muitas mães treinam cedo, enquanto o filho dorme, ou durante as atividades escolares das crianças.

Como voltar a correr depois da gravidez?

Com progressão gradual e aval médico. O retorno varia de pessoa para pessoa. O mais importante é não comparar o ritmo atual com o de antes da gestação.

Corrida afeta negativamente o tempo com os filhos?

Pesquisas mostram o contrário: exercício regular melhora humor e disposição. Mãe que treina tende a estar mais presente e com mais energia para a família.