O Women’s Health Programme foi lançado oficialmente em março de 2026 com uma missão clara: produzir o que ainda falta no trail running. Pesquisa científica focada no corpo feminino. O UTMB de agosto será o primeiro grande laboratório. E os dados coletados lá vão além das elites.
Por que ainda sabemos tão pouco sobre mulheres no ultra?
Porque a maioria dos estudos científicos sobre endurance foi feita com homens.
Isso não é teoria. A participação feminina no trail running saltou de 16% em 2007 para 30,5% em 2025, segundo dados da Associação Internacional de Trail Running (ITRA). Em menos de 20 anos, quase duplicou. Mas a ciência não acompanhou esse crescimento na mesma velocidade. A maioria dos protocolos de nutrição, hidratação, treino e recuperação que as corredoras usam hoje foi desenvolvida a partir de pesquisas feitas com atletas masculinos.
A fisiologista do exercício Dr. Stacy Sims resume bem: “Mulheres não são homens pequenos.” O problema é que o esporte por décadas as tratou assim.
O que é o Women’s Health Programme?
Uma iniciativa criada pela Ultra Sports Science e apoiada pelo UTMB, que reúne médicos, pesquisadores e atletas de elite para coletar dados em provas internacionais de grande porte.
A coordenadora do projeto, Dr. Sandrine Nail-Billaud, médica e ultramaratonista, explica o objetivo direto: os dados serão usados como base para recomendações práticas acessíveis a qualquer atleta, não só às elites. O que se aprende no UTMB chega, eventualmente, ao treino de quem corre trail no fim de semana.

As áreas de pesquisa prioritárias incluem saúde menstrual, gravidez e pós-parto, saúde hormonal, e questões de hidratação e trato gastrointestinal em esforços de ultra-endurance. São temas que afetam diretamente o desempenho e o bem-estar de qualquer corredora, mas sobre os quais existe muito menos evidência científica do que deveria.
Quem está envolvido?
Três atletas de elite francesas confirmadas no programa: Marion Delespierre, Blandine L’Hirondel e Camille Bruyas.
Delespierre tem um papel duplo relevante: além de atleta, é médica esportiva. “São questões com que trabalho todos os dias no consultório”, ela disse. “Ter acesso a mais estudos específicos para mulheres vai permitir tratamentos e suporte muito melhores no futuro.” L’Hirondel terminou em terceiro no UTMB de 2023. Bruyas foi segunda em 2025. Não são figurantes do esporte, são algumas das melhores ultramaratonistas do mundo.
E isso importa porque credibilidade científica em pesquisa de elite precisa de dados de elite.
O UTMB 2026 como laboratório aberto
O primeiro ano do programa usa o UTMB de agosto como ponto de partida. A escolha não é aleatória: o evento reúne corredoras de dezenas de países, de diferentes perfis fisiológicos, idades, origens e históricos de treino. É um dos maiores bancos de dados vivos do ultra-endurance feminino mundial.
Durante o festival do UTMB, o programa vai realizar um congresso com sessões abertas ao público e a especialistas, onde pesquisadores vão apresentar resultados de estudos em andamento sobre saúde mental, questões ginecológicas e problemas digestivos em atletas do ultratrail. E o plano é expandir além do UTMB, criando uma plataforma global de dados abertos dedicada à saúde feminina no endurance.
Dados abertos. Para qualquer treinador, médico ou atleta consultar.
Por que isso importa para quem corre no Brasil e em Portugal?
Porque os dados que faltam são os que mais afetam o dia a dia de treino das corredoras.
Quando uma atleta pergunta se pode treinar durante o ciclo menstrual, a resposta ainda costuma ser genérica. Quando busca protocolo de fueling para ultra acima de 10 horas, os estudos disponíveis são majoritariamente masculinos. Quando tenta entender como a variação hormonal afeta a percepção de esforço, a fadiga e a recuperação, a ciência ainda tem muito a responder.
O Women’s Health Programme não resolve isso de um ano para o outro. Mas é o primeiro esforço organizado e de grande escala para começar a preencher esse vazio. E agosto em Chamonix é o começo.
Perguntas frequentes
O que é o Women’s Health Programme no trail?
É um programa científico criado pela Ultra Sports Science com apoio do UTMB para pesquisar a fisiologia feminina no ultratrail. Foco em saúde hormonal, menstrual, digestiva e pós-parto.
Quando começa o programa?
O primeiro ciclo de coleta de dados acontece durante o UTMB em agosto de 2026, usado como laboratório científico ao vivo.
Os dados serão públicos?
Sim. A proposta é criar uma plataforma aberta com os resultados, acessível a atletas, treinadores e profissionais de saúde.
Só atletas de elite participam?
As atletas envolvidas são de elite, mas os dados e recomendações são desenvolvidos para ser aplicados por corredoras de todos os níveis.










