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Mulheres no trail running: o esporte que ainda tem espaço para crescer

Mulheres no trail running: o esporte que ainda tem espaço para crescer

Mulheres são 30,5% dos corredores de trail no mundo e 40% na América do Sul. O que os dados do ITRA revelam e o que está mudando no esporte.
mulheres no trail

Em 2007, mulheres eram 16% dos corredores registrados no banco de dados da ITRA (International Trail Running Association, a associação internacional que regula o esporte). Em 2025, esse número chegou a 30,5%. São quase duas décadas de crescimento constante. E ainda tem espaço para crescer muito.

Na América do Sul, o cenário já é diferente da média global: as mulheres chegam a 40% dos participantes nas provas de trail, acima da Europa e da Ásia. O Brasil puxa esse número. Mas o dado que mais revela sobre o estágio atual do esporte não é esse. É outro: quanto mais longa a prova, menor a participação feminina. Muito menor.

Entender por que isso acontece, o que está mudando e o que o esporte está fazendo a respeito é o que este artigo tenta responder.

Por que as mulheres ainda são minoria nas largadas de trail?

O gap não é de desempenho. É de acesso.

Os dados do RunRepeat, analisados em 2022 com mais de cinco milhões de resultados em 25.700 provas de 195 países, mostram um padrão que desfaz o argumento biológico de uma vez por todas: quanto maior a distância, menor a diferença de pace entre homens e mulheres. em 80 km, as mulheres são 3,7% mais lentas. em 160 km, a diferença cai para 0,5%. acima de 313 km, as mulheres são, em média, 0,6% mais rápidas que os homens.

Em 2024, a brasileira Manu Vilaseca percorreu os 401 km da prova com 12.236m de desnível positivo em 78h04min35s, terminando em 2º lugar feminino e 15º lugar geral entre mais de 200 finishers. Ela tinha 45 anos.

Manu Vilaseca, uma das mulheres no trail mais importantes
Foto: Destination Trail

Em 2026, a americana Rachel Entrekin, de 34 anos, venceu a mesma prova em 56h09min48s, batendo o recorde geral da prova e cruzando a linha de chegada à frente de todos os homens. Foi a primeira vez na história da Cocodona que uma mulher venceu a classificação absoluta.

Duas histórias diferentes, o mesmo argumento: o limite não está na biologia.

O problema não está na fisiologia. Está nas condições de acesso.

A SheRACES, organização britânica que pesquisou mais de 2.000 corredoras sobre suas experiências em provas, identificou barreiras que vão do logístico ao cultural: banheiros mistos ou insuficientes, ausência de produtos de higiene menstrual nos postos de controle, tempos de corte que não consideram o ritmo constante de atletas que retornam após a maternidade. A isso se somam fatores que saem do controle dos organizadores: a divisão desigual do cuidado com filhos dentro de casa, a sensação de insegurança em trilhas isoladas, e a baixa representatividade na mídia esportiva.

A Ourea Events, organizadora britânica de provas técnicas de montanha, analisou suas próprias provas entre 2017 e 2023 e encontrou uma média geral de 70% homens e 30% mulheres. Mas encontrou também uma tendência: 2023 estava caminhando para um recorde histórico de equilíbrio, com 57% homens e 43% mulheres. O que mudou nesses anos foram as políticas da organização, não o perfil das corredoras.

Por que a participação cai tanto nas distâncias longas?

Esse é o dado que mais chama atenção nos números do ITRA: a participação feminina vai de 45,5% nas provas de até 10 km para 14,4% nas provas de 100 milhas ou mais.

Não é uma queda gradual. É um afunilamento.

E ele ocorre exatamente nas distâncias que exigem mais tempo de treino, mais logística e mais suporte. São as provas que mais demandam das corredoras aquilo que costuma ser distribuído de forma desigual: tempo disponível, infraestrutura de apoio e confiança acumulada ao longo de anos de prova.

O caso da Baker Trail Ultra Challenge, prova de 50 milhas na Pensilvânia (EUA), mostra que esse número muda quando a organização age diretamente. Durante décadas, a prova tinha 80% de homens e 20% de mulheres. Em 2022, a organizadora Amy Nelson implementou uma série de mudanças: treinos preparatórios pré-largada, alocação de 50% das vagas para mulheres, marketing com corredoras nos materiais e política de adiamento de inscrição para gestantes e mães em período de adaptação. Em 2023, as mulheres eram 52% do pelotão.

O que muda quando a América do Sul lidera?

A América do Sul e a Oceania são as regiões com maior participação feminina no trail global, ambas próximas de 40%, bem acima da Europa (entre 26% e 30%), da África (28%) e da Ásia (27%).

No Brasil, esse movimento tem um rosto reconhecível: grupos femininos de corrida. Coletivos como o Elas na Trilha e iniciativas como a Mountain School Brasil criam o ambiente que muitas corredoras não encontram nas provas tradicionais. São espaços onde aprender a usar GPS, ler um mapa topográfico e testar terreno técnico pela primeira vez não exige coragem de sair sozinha, mas a força de entrar num grupo.

Esse modelo de iniciação coletiva é apontado pelo próprio ITRA como um dos fatores que explica por que o Brasil e a América do Sul ficam acima da média global.

Na corrida de rua, esse fenômeno já chegou ao ponto de inversão: dados de 2025 mostram que as mulheres representam mais de 52% dos corredores de rua no Brasil. Na Maratona do Rio de 2026, elas são maioria em três das quatro distâncias, com 61% nos 10 km e 60% nos 5 km. O trail está alguns anos atrás desse movimento, mas na mesma direção.

O que o esporte está fazendo para mudar esse cenário?

mulheres no trail
foto: ITRA

O Women’s Trail Day, iniciativa lançada pelo ITRA em 2025, é a resposta institucional mais recente. Todo dia 1 de junho, mulheres em todo o mundo são convidadas a sair para trilhar em grupo, individualmente ou em eventos organizados localmente, com o objetivo de celebrar a comunidade e ampliar a visibilidade feminina no esporte. A primeira edição, em 2025, teve um evento presencial em Chamonix (França) e participação registrada em múltiplos países.

No circuito das grandes provas, o movimento mais concreto vem das políticas de parentalidade. A UTMB World Series passou a oferecer adiamento de inscrição de até 5 anos para gestantes, com proteção do UTMB Index por esse período e extensão da política para parceiros e casos de adoção. O Hardrock 100 adota política similar. Essas políticas reconhecem que o ciclo de vida das corredoras não segue o mesmo ritmo do calendário esportivo, e que perder uma vaga em prova por uma gestação não deveria significar recomeçar do zero.

Como participar do Women’s Trail Day em 2026?

O Women’s Trail Day acontece todo 1 de junho. A participação é livre: qualquer corrida em trilha feita nessa data, em grupo ou individual, conta. O ITRA convida as participantes a compartilhar suas histórias nas redes sociais com a hashtag oficial da iniciativa e a marcar o perfil da associação.

Para grupos e organizadores que queiram registrar um evento oficial, o ITRA disponibiliza orientações no site da iniciativa.

O Somos Trail vai correr junto. Corre em Qualquer distância. Qualquer terreno.

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Perguntas frequentes

Qual é a participação feminina no trail running no mundo?

Em 2025, mulheres representam 30,5% dos corredores registrados no banco de dados da ITRA, ante 16% em 2007. Na América do Sul, o número chega a 40%.

Por que as mulheres correm menos ultras que os homens?

Os dados apontam barreiras logísticas e sociais, não físicas. Quanto maior a distância, mais tempo de treino e suporte são necessários: recursos distribuídos de forma desigual. No ritmo, as mulheres se aproximam dos homens conforme a distância aumenta, e superam em provas acima de 195 milhas.

O que é o Women’s Trail Day?

É uma iniciativa anual do ITRA, celebrada em 1 de junho, que convida mulheres de todo o mundo a correr em trilha, individualmente ou em grupo, para ampliar a visibilidade feminina no esporte e celebrar a comunidade.

Referências

ITRA. (2026). What Shapes Women’s Participation in Trail Running? https://itra.run/en/114/news/what-shapes-women%E2%80%99s-participation-in-trail-running
ITRA / SheRACES. (2023). Removing barriers to women in trail running: A guide for events. https://itra.run/content/news/SheRACES-ITRA_Guide_For_Events-English.pdf
RunRepeat. (2022). The State of Trail Running 2022. https://runrepeat.com/the-state-of-trail-running-2022
RunRepeat. (2020). The State of Ultra Running 2020. https://runrepeat.com/state-of-ultra-running
Ourea Events. (2023). Overcoming Barriers to female participation in trail running: Race Director’s Blog. https://www.oureaevents.com/news/2023/3/6/female-participation-race-directors-blog
UTMB World. (2024). Manuela Vilaseca: Runner profile and results. https://utmb.world/runner/150841.manuela.vilaseca
UTMB World. (2024). UTMB World Series expands its Paths to Parenthood policy. https://utmb.world/news/Path-to-Parenthood