O UTMB são 171 km ao redor do Mont Blanc, a montanha mais alta da Europa Ocidental, atravessando França, Itália e Suíça com 10.000 m de desnível positivo acumulado. Com limite de 46 horas para completar o percurso, é considerada a prova de trail mais importante do mundo. Para muitos corredores, é o objetivo de uma vida inteira.
Onde fica e como é o percurso?
A largada e chegada são em Chamonix, vilarejo nos Alpes franceses encravado entre montanhas que chega a 4.807 m de altitude no topo do Mont Blanc. O percurso segue a rota clássica do Tour du Mont Blanc, um dos caminhos de trekking mais famosos do planeta.
Do centro de Chamonix, os corredores sobem para Les Houches e seguem em sentido horário ao redor do maciço. Passam pelos Alpes italianos com a descida para Courmayeur, pelo lado suíço por Champex-Lac e Col de la Forclaz, e voltam para a França pela região da Flégère antes da descida final para Chamonix.
O ponto mais alto da prova fica a pouco mais de 2.600 m de altitude. Não é o Everest. Mas é altitude suficiente para sentir a diferença no ar, especialmente depois de 100 km de pernas cansadas.

São 17 postos de abastecimento ao longo do percurso, com 12 barreiras horárias eliminatórias. Quem não chegar no tempo certo em determinados pontos é retirado da prova. A organização leva a sério.
Como surgiu e por que se tornou a maior prova do mundo?
A primeira edição aconteceu em 2003. Foram 722 inscritos. Só 67 cruzaram a linha de chegada. Menos de 10% dos participantes.
A prova cresceu tão rápido que em 2005 já havia esgotado os 5.000 lugares, sete meses antes do evento. Em 2007, com a exigência de qualificação por pontos, os 5.000 lugares foram preenchidos em menos de 24 horas após a abertura das inscrições. Em 2008, 6.000 inscrições em menos de oito minutos.

Nenhuma outra prova de trail cresceu com essa velocidade. O UTMB não foi planejado para ser a maior prova do mundo. Simplesmente se tornou.
Hoje a semana do UTMB em Chamonix reúne mais de 10.000 participantes em oito distâncias diferentes, de 40 km a 300 km. A cidade, normalmente um destino de esqui com poucos milhares de moradores, vira a capital mundial do trail running por uma semana inteira em agosto.
O que torna o UTMB diferente de qualquer outra prova?
A distância e o desnível já seriam suficientes. Mas não é só isso.
É a noite. A maioria dos corredores passa duas noites inteiras em movimento. Você larga na sexta à tarde, corre a noite de sexta para sábado pelas montanhas italianas, passa o sábado na parte suíça, e chega em Chamonix no domingo. Se você está no pelotão médio, vai dormir zero horas. Vai ver o pôr do sol, a lua cheia sobre o Mont Blanc, o nascer do sol nos Alpes suíços, e só então vai ver Chamonix de longe, ainda com quilômetros pela frente.
É a multidão. Chamonix não dorme durante a semana do UTMB. As ruas ficam cheias de pessoas a qualquer hora. Às 3 da manhã tem gente de pé torcendo para corredores que estão há 20 horas na prova. Às 4 da manhã tem tambores. Às 5 da manhã tem crianças acordadas segurando faixas com o nome do pai ou da mãe que está chegando.
E é o sentimento de cada corredor saber que está fazendo algo que muito poucas pessoas no mundo vão fazer.
Os números que fazem o UTMB ser o que é
- 171 km de percurso total
- 10.000 m de desnível positivo acumulado
- 3 países cruzados: França, Itália e Suíça
- 46 horas é o tempo limite para completar a prova
- 2.500 corredores na prova principal
- 10.000+ participantes na semana completa com todas as distâncias
- 2003 foi a primeira edição, com apenas 67 finalizadores em 722 inscritos
- 19h37min43s é o recorde do percurso, estabelecido por Jim Walmsley em 2023
- 22h09min31s é o recorde feminino, de Katie Schide, também em 2024
- Mais de 40% dos inscritos não terminam a prova principal em anos normais
Quem já venceu e o que os recordes dizem sobre a prova
Kilian Jornet venceu o UTMB quatro vezes: 2008, 2009, 2011 e 2022. Na primeira vitória, tinha 20 anos. Na última, 34, e se tornou o primeiro homem a completar o percurso em menos de 20 horas, cruzando a linha em 19:49.
Jim Walmsley quebrou esse recorde em 2023 com 19:37. Mas o caminho de Walmsley até o título tem uma história própria: ele tentou em 2017, 2018, 2019 e 2022. Abandonou em todas. Em 2023, finalmente venceu e bateu o recorde. Não existe metáfora de persistência mais literal do que essa.
Courtney Dauwalter venceu em 2021, 2022 e 2023. Três edições consecutivas. A última foi no mesmo ano em que venceu o Western States 100 nas Estados Unidos. Nenhum homem jamais fez esse dobro. Ela fez.

A história do UTMB é uma coleção de histórias assim. Porque a prova não seleciona apenas os mais rápidos. Seleciona os que voltam.
Como funciona a qualificação e por que é tão difícil entrar?
Não basta querer. Não basta pagar.
Para participar do UTMB, o corredor precisa acumular Running Stones (as antigas ITRA points), obtidos em provas qualificadoras do circuito mundial UTMB World Series. Cada prova dentro do circuito distribui pedras conforme a dificuldade. E mesmo tendo as pedras necessárias, o corredor ainda precisa passar por sorteio.
Quem não é sorteado na primeira tentativa dobra as chances no ano seguinte. Na terceira tentativa consecutiva, garante a vaga independente do sorteio. A organização chama de sistema justo. Os corredores chamam de angustiante, com carinho.
O Brasil integra o circuito com a UTMB Paraty, realizada em Paraty (RJ), entre a Serra da Bocaina e a Mata Atlântica. Serve como qualificadora para o sorteio de Chamonix. É um caminho. Não é curto.
O que os corredores sentem ao cruzar a linha de chegada
Quem já correu o UTMB diz coisas parecidas quando tenta descrever a chegada.
Falam da Rue du Docteur Paccard, a rua principal de Chamonix. De como a multidão se fecha dos dois lados, de como os tambores batem, de como os holofotes iluminam a reta final. E de como, depois de 30, 40, às vezes 46 horas de montanha, o corpo que mal conseguia caminhar na última subida encontra energia para correr os últimos 200 metros.
Ninguém explica isso de forma racional. Simplesmente acontece.
A organização diz que o UTMB é “mais do que uma corrida, é uma aventura introspectiva que transforma cada pessoa que enfrenta o desafio”. Pode parecer exagero de marketing. Mas quem está na linha de chegada às 3 da manhã vendo um desconhecido de 58 anos cruzar chorando depois de 44 horas na montanha entende exatamente o que isso significa.
O UTMB em 2026: agosto vai ser especial
A edição de 2026 acontece na última semana de agosto em Chamonix. E tem um nome capaz de trazer de volta corredores que não apareciam há anos: Kilian Jornet está de volta, buscando o quinto título que o tornaria o maior vencedor masculino da história da prova. Jim Walmsley defende o título. E o recorde de 19:37 ainda está na mesa.
Para o trail runner brasileiro que sonha com Chamonix, o caminho passa pelas qualificadoras do circuito. A UTMB Paraty (RJ) é a mais próxima. O sorteio, como sempre, é incerto. Mas o objetivo é claro.
Conheça mais provas desafiadoras no Brasil e no mundo. Clique aqui.
Perguntas frequentes
Quanto tempo os corredores têm para terminar o UTMB?
46 horas. Os melhores terminam em pouco mais de 20 horas. O corredor mediano leva entre 35 e 42 horas, passando duas noites inteiras em movimento.
Por quantos países passa o percurso do UTMB?
Três: França, Itália e Suíça. A largada e a chegada são em Chamonix, França.
Como me inscrever no UTMB?
É preciso acumular Running Stones em provas qualificadoras do circuito UTMB World Series e participar do sorteio. No Brasil, a UTMB Paraty é uma das qualificadoras mais acessíveis.
Qual é o recorde do UTMB?
19h37min43s, estabelecido por Jim Walmsley em 2023. No feminino, 22h09min31s de Katie Schide, também em 2023.
Qual a taxa de abandono no UTMB?
Em anos normais, entre 35% e 42% dos corredores não terminam a prova principal de 171 km.










