Vamos falar de corrida e saúde mental? Em outubro, mês que homenageia a saúde mental, quero conversar com você sobre o que a corrida e a trilha podem contribuir com o seu bem-estar. Às vezes, 1 hora de movimento muda o rumo de um dia inteiro.
Corrida e saúde mental: o que o movimento faz por você?
Quando você corre, o corpo libera substâncias ligadas ao humor, como serotonina, dopamina, endorfina e noradrenalina. Com a prática regular, ele também regula melhor o cortisol (o hormônio do estresse) e solta a tensão que se acumula nos ombros, no pescoço e na cabeça.
Muitas pessoas sentem a mudança de humor logo depois da corrida. Essa recompensa imediata ajuda a manter o hábito.
Na prática, quem corre costuma notar:
- Mais calma no dia a dia e humor mais estável.
- Menos estresse acumulado no corpo.
- Um sono mais profundo e menos irritação no dia seguinte.
- Memória e concentração mais preservadas com o passar dos anos.
Natureza: por que ela pode ampliar o efeito do exercício?
Porque ela nos tira do ritmo acelerado das cidades. Parques e florestas bem cuidados favorecem o relaxamento, e a atenção descansa: a mente deixa de lutar contra telas, buzinas e trânsito.
A luz do sol também ajuda. Ela estimula a vitamina D, que pode estar ligada a menos sintomas depressivos. Correr de manhã ou no fim da tarde garante essa luz, sempre com protetor solar.
Uma pesquisa recente da USP, publicada no Journal of Environmental Psychology, mostra essa relação entre o contato com a natureza e a saúde. “Vemos que pessoas que conseguem morar em áreas que têm uma maior quantidade de vegetação têm uma saúde mental melhor”, diz a pesquisadora Karla Vieira Morato, do Instituto de Biociências da USP. E o acesso também conta: é preciso poder usar esse verde com segurança.
Promover, prevenir ou tratar: qual é a diferença?
Promoção, segundo parâmetros da OMS, é um estado de bem-estar em que você reconhece suas habilidades e consegue enfrentar as tensões normais da vida. Na prática, significa criar condições positivas de vida: lazer, segurança, vínculos, redes de apoio e acesso à educação.
A prevenção é outra coisa. Ela tenta evitar o surgimento de um transtorno específico.
E o tratamento cuida de quem já está adoecido, buscando o cuidado de profissionais de saúde.
Trilha ou asfalto: qual faz mais bem para a cabeça?
Ainda não dá para dizer. Nenhum dos estudos que encontrei comparou trilha com asfalto diretamente.

O que existe é uma revisão de 28 estudos comparando exercício ao ar livre, no verde, com exercício em ambiente fechado. A evidência de que o verde seja melhor é limitada. Mesmo assim, sair ao ar livre pode deixar o exercício mais prazeroso, e o esforço parece um pouco mais leve.
Entre quem corre, a percepção é outra: a trilha pede presença. O chão irregular prende sua atenção no próximo passo e interrompe aquele ciclo de pensamentos que muita gente leva para a corrida de rua. Não tem semáforo, e a subida convida a caminhar sem culpa.
O maior benefício vem de se exercitar com regularidade, no asfalto ou na trilha. A trilha soma o ambiente natural, que tende a deixar tudo mais gostoso. E o que é gostoso você repete por meses.
O que a trilha me ensina sobre as mudanças da vida?
Na minha vivência, começar a manhã conectada com o meu corpo e com as mudanças de cada dia na natureza costuma trazer a percepção de que o mundo está sempre em movimento. Isso pode nos ajudar a pensar em situações da vida que às vezes parecem não ter saída.
Uma baita inspiração! As árvores, os pássaros, as sombras, os galhos e as poças se transformam a cada dia. Relativizar essas transformações como parte do viver é algo precioso.
Como começar a correr na trilha sem se cobrar tanto?
Comece pequeno: trilha curta, ritmo leve e uma meta que caiba na sua semana. O objetivo no início é se movimentar, não correr rápido. Assim, evitamos a frustração inicial e aproveitamos cada pequena conquista.
Algumas dicas que podem contribuir:
- Se der, guarde o relógio. Medir o pace (o tempo por quilômetro) pode virar mais uma cobrança.
- Pode alternar caminhada e corrida. É um começo comum entre iniciantes, e não tem nada de errado nisso.
- Evite trilha isolada e sozinho nas primeiras vezes. Leve água e avise onde vai estar.
- Uma saída curta, mesmo de pouco tempo, já faz bem. E vale mais do que o plano perfeito que você abandona na segunda semana.
Lembre-se: você não é todo mundo! Observar como você se sente, de tempos em tempos, faz toda a diferença. O que motiva e impulsiona algumas pessoas pode virar cobrança e exigência para outras. Por isso, não se desconecte da sua experiência individual.
E quando só correr não basta?
Quando a tristeza, a ansiedade ou a irritação duram semanas e atrapalham o trabalho, o sono ou as relações. A corrida cuida do bem-estar, mas não substitui o cuidado profissional. Procure um psicólogo ou psiquiatra, e não interrompa remédio ou terapia por conta própria.
Vale prestar atenção também quando a corrida vira obrigação, culpa ou fuga: treinar machucado, sentir angústia ao pular um dia, usar o treino para não olhar para o que incomoda. Conversar com um profissional ajuda a reconstruir uma relação mais leve com o esporte.
Leia também:
- Trail running faz bem para a saúde mental?
- Por que começar a correr é difícil?
- Como começar no trail running vindo do asfalto
Perguntas frequentes
Quem tem ansiedade pode correr na trilha com segurança?
Em geral sim, com trilha simples, ritmo leve e companhia. Se a ansiedade é intensa ou diagnosticada, combine antes com seu psicólogo ou psiquiatra.
Correr perto de rio ou mar também conta como natureza?
Sim. As pesquisas sobre exercício ao ar livre incluem rios, lagos e mar ao lado das áreas verdes, e todos parecem fazer bem.
Aviso: o conteúdo deste artigo tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento psicológico, psiquiátrico ou médico. Procure um profissional de saúde antes de iniciar ou alterar atividade física, principalmente se você tem diagnóstico de saúde mental, doença cardiovascular ou está há muito tempo sem se exercitar.
As informações sobre treinamento são baseadas em metodologias amplamente estudadas na literatura científica de endurance. Não constituem prescrição individual. Consulte um educador físico especializado em corrida, registrado no CREF.
Referências científicas
- Organização Mundial da Saúde (OMS). Documento sobre promoção de saúde mental. https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/9e776de6-adc7-46c1-936f-6dd2bb4f7373/content
- Morato, K. V. (2026). Pesquisa sobre natureza e saúde mental. Journal of Environmental Psychology. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0272494426001891 [VERIFICAR: título do artigo, coautores e DOI]
- Constante, Y. (2026). Muito além do verde: como gênero e CEP mudam nossa conexão mental com a natureza. Jornal da USP. https://jornal.usp.br/ciencias/muito-alem-do-verde-como-genero-e-cep-mudam-nossa-conexao-mental-com-a-natureza/
- Lahart, I. et al. (2019). The Effects of Green Exercise on Physical and Mental Wellbeing: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health. https://doi.org/10.3390/ijerph16081352
- Marini, S. et al. (2022). The Effect of Physical Activity Interventions Carried Out in Outdoor Natural Blue and Green Spaces on Health Outcomes: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health. https://doi.org/10.3390/ijerph191912482

Fernanda Borges é psicóloga e psicanalista. Corredora de asfalto e trilhas. Interessada na Cultura e em tudo que o humano produz. Especializada em saúde mental, mestre pela PUC-Rio e filiada à International Psychoanalytical Association – CRP 27882-5







